"DIA DA FREGUESIA", PELO PRESIDENTE FILIPE ROCHA.



Dia da Freguesia

1. cumprimentos


Exmo. Srs.

Amigos Lanhesenses,



agradeço a todos a presença nesta singela mas importante e rica em significados Cerimónia de Comemoração do Dia da Freguesia de Lanheses.





2. O “Dia da Freguesia”


Há três anos instituiu-se, em Lanheses, o “Dia da Freguesia”. Cabe-me a mim, passado esse tempo, presidir a Cerimónia de Comemoração e dirigir-vos, nesse âmbito, algumas palavras.

Quando me sentei para alinhavar algumas ideias, ocorreu-me, talvez por deformação profissional, que devia começar por refletir, aqui, sobre a expressão “Dia da Freguesia”.

-         o que é? o que representa? que significados encerra? o que comemora?

-         deve celebrar o passado, refletir sobre os dilemas do presente ou perspetivar o futuro?

-         deve contemplar, exaltar ou interpretar a história da Freguesia? das suas gentes e património?

-         pode abraçar causas, afirmar valores, definir rumos, reivindicar futuros?

E entre estas questões muitas outras se poderiam colocar. Umas mais objetivas outras mais abstratas. Umas mais racionais outras mais emocionais.

Para falar sobre o Dia da Freguesia, tive a tentação de recorrer às Ciências Exatas, minha área de formação de base, que aconselham a dividir problemas complexos em problemas mais simples e assim refletir sobre cada uma das questões que foram surgindo.



2.1 Lanheses não é apenas a soma das suas partes


Mas a Freguesia de Lanheses é muito mais que a soma das partes. No Dia da Freguesia é obrigatório olhar para ela como um todo, com passado, presente e futuro.



Lanheses não é apenas uma terra que confronta com o Lima, mas que interage com ele, que recebe e dá. As águas do Lima trazem vida a Lanheses mas levam, dia após dia, uma parte de nós.

Foram as suas correntes que inspiraram os nossos antepassados na construção das pirogas monóxilas, que tanto nos orgulham pela sua importância na história da navegação fluvial e antiguidade e que esperamos ver regressadas brevemente, ou a vela redonda do água-arriba. Foram as suas correntes que alimentaram as nossas veigas, terras que sustentaram gerações.

Lanheses é uma freguesia muito mais rica pela presença do Lima, mas que também viu partir nessas águas alguns dos seus.



Lanheses é mais que a comunidade que a habita. É a comunhão entre os que partilham diariamente o seu espaço; residentes e gente de outros lugares, sejam trabalhadores, estudantes, clientes ou visitantes. Lanheses transforma-se, molda-se e evolui, positiva ou negativamente, a cada contacto, a cada conversa, a cada negócio, a cada aprendizagem.

Lanheses é mais que a comunidade que a habita porque a saudade também faz parte da comunidade lanhesense, que não está completa sem os seus emigrantes, sejam da velha ou da nova vaga.

Lanheses é mais que a soma dos que partem, porque o seu país não lhes permitiu que continuassem, e os que ficam. É o local que se esvazia para dar ao mundo, que chora mas resiste na ausência e que se reconfigura com o que recebe a cada regresso.



Lanheses é mais que a sua história. É uma construção coletiva que vem de tempos imemoriais, dos quais nos chegam alguns ecos que vão aumentando de intensidade à medida que se aproximam da modernidade. Entre os ecos mais longínquos estão as pirogas, a exploração mineira dos Romanos, a Cividade, diversos vestígios cerâmicos que sobreviveram a quem os construiu ou usou.

Mas as marcas desses tempos também são imateriais, e foram, certamente, deixadas por essas populações às gerações que se sucederam, seja sob a forma de expressões, de que o significado do nome da freguesia é exemplo, de artes e ofícios, de tradições ou ladainhas. Muitas dessas marcas foram corroídas pelo tempo e pelos elementos, outras subsistiram evoluindo.

Lanheses é, pois, mais que a herança do património construído, etnográfico e cultural. Também é o património que, por este ou aquele motivo, não resistiu, assim como é o dever de o estudar e preservar.

Lanheses, hoje, também é o seu passado. Foi amassado pelas gerações anteriores e alimenta o que somos.

2.2 A memória é alicerce do presente e rumo para o futuro




D. Pio Alves, ilustre lanhesense, escreveu no prefácio do livro “Lanheses, a preto e branco”, editado pela Junta de Freguesia de Lanheses o seguinte:

“Ansiosos diante de um futuro que insistentemente se anuncia carregado, urgidos por uma pressa que empurra para malviver o presente, corremos o risco de ignorar ou até de riscar o passado. E, sem memória, acabaremos por perder-nos na barafunda cinzenta de uma globalização desumanizada onde todos são tudo e ninguém é nada.” E acrescenta, adiante, “A memória, quando é mais que regresso, nunca estorva, só ajuda.”



Como D. Pio Alves, estou convicto que uma comunidade sem memória, é uma comunidade sem rumo e que a memória deve ser mais que um mero exercício saudosista



Assim, hoje, dia 29 de abril, celebramos a elevação da Freguesia a Vila, por decreto da Rainha D. Maria I, corria o ano de 1793. Foi fundamental, neste processo, a influencia da  família dos Ricaldes, que antes desta cerimónia homenageamos com a colocação de uma coroa de flores no túmulo que se encontra na Igreja Paroquial.

A História da Freguesia não começa aí, como atrás referi, mas é nesse acontecimento que reside o seu ponto mais alto. Interessa, pois, não numa perspetiva histórica, que francamente não domino, mas mais numa perspetiva sociológica, pensar nos 221 anos que nos decorreram desde esse 29 de abril.

Nos 42 anos em que Lanheses manteve o estatuto de Vila, ocorreu um franco desenvolvimento. Construiu-se o pelourinho, símbolo da sua autonomia administrativa, a casa dos Paços do Concelho, a cadeia, agregaram-se as freguesias de Fontão, Meixedo e Vila Mou, instituiu-se a feira quinzenal.

A extinção do Concelho, em 1835, e o regresso à condição de Freguesia terá, certamente, gerado grande entrave ao desenvolvimento que se verificava. O tempo, no séc. XIX, tinha outra velocidade e permitiu, à freguesia, manter uma certa centralidade.

No séc. XX, assiste-se a grandes transformações, das quais se pode enumerar, a título de exemplo:

-       o florescimento e declínio da indústria da olaria, construção da Escola Primária, o abastecimento de água, a progressiva substituição da agricultura e pecuária pelo comércio e serviços, a construção da Ponte de Lanheses, da C+S e do Centro de Saúde e a constituição de diversas Associações

Já no séc. XXI, surgiu o Parque Empresarial, o Parque Verde, o Centro Escolar e o Centro Social.



Nos 221 anos que passaram desde o 29 de abril de 1793 Lanheses soube estar à altura dos desafios, aproveitou oportunidades de desenvolvimento, passou por períodos de menor fulgor, resistiu, reinventou-se, soube conviver com diferentes regimes, fossem não democráticos ou democráticos, e manteve um rumo.



No Dia da Freguesia, é justo que se homenageiem todos os lanhesenses, que independentemente do seu estatuto, contribuíram e contribuem, mais ou menos anonimamente, de forma voluntária e dedicada, para a construção de um edifício comum, que é esta nossa Freguesia. Felizmente são muitos. Tantos e em tão variadas áreas da nossa vida comunitária que é impossível nomear aqui. No entanto, há sempre lugar para mais um e todos não somos demais; nenhum edifício se constrói por si só.



No percurso que nos trouxe até aos dias de hoje, naturalmente, erros foram cometidos. Mas emendaram-se. E as lições do passado ajudaram a evitar armadilhas dos tempos que se seguiram.



Hoje, sabemos que vale a pena investir na educação de qualidade. Compensou construir uma Escola Primária, instalar um externato, evoluir para um centro escolar e uma escola básica e secundaria. Somos uma comunidade mais instruída e rica em conhecimento.



Hoje, sabemos que é preciso investir nas pessoas. Compreendemos que a saúde e o bem estar social são mais importantes que as obras de fachada e que os recursos não podem faltar nessas áreas. Somos uma comunidade solidária que se mobiliza, por vezes com grande sacrifício, para compensar as falhas das autoridades competentes.



Hoje, sabemos que é preciso travar continuamente a batalha do ambiente. Percebemos que a qualidade do ambiente é um bem precioso, que é permanentemente ameaçado e não aceitamos a sua degradação. Somos uma comunidade que valoriza os espaços verdes e reivindica qualidade ambiental.



Hoje, sabemos que é preciso inovar. Aprendemos que a inovação é uma forma de nos mantermos alinhados com o desenvolvimento, gerarmos mais valias, principalmente com os recursos que já possuímos. Somos uma comunidade que apresenta projetos e sabe potenciar o seu património.



Hoje, temos a certeza que vale a pena investir na cultura. Soubemos preservar muitas das nossas tradições através das festas religiosas, de um rancho folclórico de excelência, da recuperação das nossas memórias, através de exposições museológicas, publicações, documentários e reconstruções. Somos uma comunidade que há muito descobriu o teatro e que possui uma geração saudosa das sessões ao ar livre e na Casa do Povo, e a quem nós hoje pretendemos prestar singela homenagem nas palavras do Sr. Remígio Costa e, depois, no final desta cerimónia mais formal com a apresentação de uma pequena peça.



Para terminar, retomo a ideia central desta mensagem: Lanheses é muito mais que a soma das partes. É também o seu produto. É a memória coletiva construída entre o passado e o presente. É a interação entre o património e as tradições. É o encontro do rio com a montanha. É a incompatibilidade entre o artesanato e a indústria. É a cultura das pessoas de hoje, esculpida pelas gerações de ontem. É a identidade comunitária construída pelos valores e a escola.

É a confiança na capacidade de, unidos, aprender com o passado de modo a enfrentar os desafios e de os vencer, como sempre fizemos.



Lanheses é tudo isto e mais. Tem memória, tem carácter, tem orgulho em si. Sabe de onde veio, sabe pelo que passou e sabe o que quer.



Em Lanheses palpita há muito uma alma - a alma da gente de Lanheses.

VIVAM OS LANHESENSES. VIVA LANHESES!!






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