quinta-feira, 31 de março de 2016

CURIOSIDADES ACERCA DA VISITA PASCAL, EM LANHESES, VIANA DO CASTELO.

            


            É incontornável nesta quadra especial que acabamos de passar a evocação em conversas informais de circunstância dos procedimentos, diria mesmo rituais, relacionados com a visita pascal em Lanheses em épocas que, por convergência de experiência vivencial dos factos, se limitam até aos anos sessenta do século passado.

           Antes da implantação do sistema de recolha dos sobrescritos com os donativos confidenciais da família que recebia o Compasso ofertados apenas ao pároco residente da paróquia, usavam-se moedas que se fixavam numa laranja por descascar ou maçã "da porta de loja", luzidia e sã no caso raro do chefe da família as tivesse conservadas desde o ano anterior para tal fim. O valor da moeda andaria à roda de cinquenta centavos (na moeda portuguesa ao tempo em vigor) num cálculo generosamente otimista porque uma grande parte dos visitados nem de tanto poderia dispor por carência económica e só muito excecionalmente o fruto valeria uma moeda de dez escudos numa abastada casa de lavoura ou de brasileiro de volta à terra natal com a bolsa bem recheada de libras da árvore das patacas ou crivadas no garimpo das areias dos rios. Só o abade Fraga era contemplado e reza a história que Ribeiro da Fraga, desprendido e generoso como era, não permitia que se levantasse a oferta, por pequena que fosse, nos lares onde o pão era à míngua e de que ele estava bem ciente porque a todos muito bem conhecia.


            No presente, quase todos os fogos são de construção recente ou estão reconstruídos de pouco tempo. Têm traça de moradias confortáveis dotadas de mobiliário moderno e decoração a gosto, ao contrário das antigas casas rurais habitadas por lavradores e ocupadas com grandes caixas e arcas de madeira, masseiras (1) de fazer a massa da broa de milho, salgadeiras, tear e talhas para guardar o azeite ou mesmo utensílios de uso corrente. Não havia arrumos e limpezas frequentes como agora acontece com naturalidade e apenas uma vez pela Páscoa se procedia a uma limpeza geral, à caiação de paredes, colocação de vidros nas janelas onde faltavam ou estavam partidos, consertavam-se com remendos o soalho, esfregava-se depois de joelhos com vassoura de mão de piaçaba e sabão rosa, colocavam-se papéis novos com bicos e figurinhas na chaminé a esconder o fumo dos fumeiros, arranjava-se a cadeira partida onde o senhor abade deveria sentar-se numa almofada ou toalha e arejavam-se roupas da cama e pessoais para vestir no dia de Páscoa. Sem esquecer a toalha branca de linho guardada na arca. Só motivos de força maior obstava a que ficassem fechadas ao Compasso as portas de uma qualquer habitação. À entrada as crianças e não raro adultos, beijavam a mão ao sacerdote.


            Muito antes do domingo de Páscoa já o dia era vivido de forma quase obsessiva. Era a expectativa de estrear um vestido ou fato e gravata comprados na feira quinzenal em Lanheses ou em Ponte de Lima, de calçar sapatos novos e, segredo bem fechado ou confidenciado a alguém muito próximo, o sonho de um adolescente se iniciar numa conquista amorosa. Então, elas de malinha nova ao tiracolo, com a luz do nascer do sol no sorriso, vaidosas no vestido a estrear, de cabelo entrançado ou até de lavradeira vestida usando lenço traçado, seguiam em grupo restrito (por estratégia...), estrada acima estrada abaixo, rindo muito e cantando aleluias, levando atrás de si os iniciados pretendentes desejosos  de "romper a asa" de olho na pombinha com quem ansiavam arrolar. Andavam neste jogo até à recolha da Cruz e só depois da benção final, com a noite solta a cair ganhavam coragem para chegar à fala com a eleita e, sem oposição porque o consentimento tácito estava demonstrado, seguiam lado a lado até ao portal da morada da moça com despedida sem mais formalidades protocolares...a mãe já estava por detrás da cortina.
            
            A tradição não repõe (comprovadamente!) a realidade de outrora. 

(1) Mesa com tampa e fundo em forma de caixão construída em madeira onde se preparava com as mãos a massa para a broa de milho, a qual ia ao forno aquecido a lenha depois de levedar.

Fotos: doLethes
Remígio Costa

Exposição ROSTOS da MEMÓRIA no FEMININO, de José Marques | 2 de abril, pelas 11h00 | Antigos Paços do Concelho 1º andar

  Exposição ROSTOS da MEMÓRIA no FEMININO, de José Marques | 2 de abril, pelas 11h00 | Antigos Paços do Concelho 1º andar

terça-feira, 29 de março de 2016

ONDE ESTÃO OS VISITANTES DO doLETHES.

LEVAR LANHESES ATÉ ONDE BATE UM CORAÇÃO         LANHESENSE.


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CARROCROSS COM MARCA DE ORIGEM.




"estes cantares fez..."

            

                david f. rodrigues avançou por conta própria para a edição de um livro de poesia atribuindo-lhe o título de "estes cantares fez & som escarnhos d´ora", título que parece inspirar-se no trovadorismo da idade média mas que se ajusta como uma luva às atitudes da sociedade atual numa abordagem singular plena de humor e a acuidade crítica de um escritor culto e atualizado.

           Li o livro do professor vianense jubilado doutor David F. Rodrigues com muito agrado, pedindo vénia para divulgar uma das suas cativantes  composições da obra ora divulgada que aqui muito me apraz dar a conhecer.

                      
                    "a menina não tem limões pergunto
                     eu distraído no meio da freguesia
                     por tanta fruta apetitosa
                     ou dela tão só por ventura curiosa

                     não tem olhos na cara senhor
                     retorquiu ela e eu logo
                     delicado como sempre lhe rogo
                     desculpa por tudo mas observo

                     minha cara menina ainda
                     bem reparado não tinha
                     a fundo no decote magnífico

                     da sua magnífica blusa
                     uma beleza assim justamente
                     mais fosse toda ela transparente" 


PS.Vai na segunda tiragem e apenas é vendido em quatro papelarias em Viana do Castelo.

Foto: doLethes

segunda-feira, 28 de março de 2016

JANTAR DA MORDOMIA DO DOMINGO DE PÁSCOA.

         
               O Mordomo da Cruz, Manuel Baptista Rodrigues, com o pároco residente das freguesias de Santa Eulália de Lanheses e São Paio de Meixedo padre Daniel da Silva Rodrigues e restantes membros do Compasso Pascal de 2016.


            O Mordomo da Cruz tem o momento alto do exercício das suas funções de um ano (1 de Janeiro a 31 de Dezembro) na festa da Páscoa pelo papel que lhe cabe como portador da Cruz na visita domiciliária do Compasso mas particularmente pela incumbência inerente de organizar e oferecer o "jantar da Páscoa", no dia de Domingo. Decorrendo a visita pascal em dois dias por força da dimensão territorial da freguesia de Lanheses (Viana do Castelo) e do número de fogos a visitar, na segunda feira a comitiva almoçava a expensas do pároco residente, costume que saiu da tradição pascal depois do abade Francisco Ribeiro da Fraga deixar o exercício da paróquia, passando a refeição a ser servida no mesmo local do dia anterior com a presença de  elementos familiares e de alguns amigos próximos, ainda como encargo da Mordomia.




          A participação no jantar -designação mais comum que vem do passado- é feita por convite pessoal da Família Mordomo da Cruz a que são admitidos preferencialmente parentes, amigos próximos e às vezes figuras de destaque social ou em exercício de cargos administrativos e outrossim clientes ou fornecedores que se vise obsequiar com vista a manter as melhores relações como intermediários de interesses partilhados no caso de o Mordomo praticar trabalho ou atividade negocial.

         Com o decorrer dos anos e a gradual subida do poder de compra que a emigração e desenvolvimento económico trouxeram à população em geral, cresceu em quantidade e qualidade o campo de escolha dos presumíveis convidados somando número relevante a requerer espaço compatível. Entre a montagem de uma tenda amovível no exterior mais onerosa (porque apesar de ultra-dimensionadas as moradias seriam sempre pequenas para o fim em vista), a Mordomia está a optar por realizar o evento em recintos amplos adaptados onde podem alojar-se à vontade maior número de convivas.


         Aquela,foi a solução escolhida por Manuel Batista e Alice Sousa, Família Mordomo da Cruz nesta Páscoa de 27 de Março de 2016, transformando metade do pavilhão gimnodesportivo da casa do povo de Lanheses, bem perto do centro cívico e da sua residência habitual, num ambiente suficientemente acolhedor para receber pouco menos de três centenas de convivas, dispostos aleatoriamente em mesas paralelas comuns, à vontade de cada um. Com cozinheiras experimentadas e que gozam de justificado prestígio, chegaram as travessas às mesas servidas por jovens dos dois sexos, diligentes e simpáticos. Pratos simples, regionais, porque bacalhau e cabrito "caem" bem em toda a dieta minhota e melhor ao paladar de um mortal a sair de uma dieta e, confeccionados por quem a experiência ensinou bem, infringir as regras com moderação não merece pena sem absolvição; se castigo houvesse que decretar (estava lá um juiz...) que a penitência fosse atenuada com uma colher de saboroso arroz doce ou creme queimado como só no Minho se degusta...


         Fiquem tranquilos os que destas andanças não têm vivência própria ou são antigos que arrastam memórias doutros (maus tempos idos, digo eu), que o Baptista e a Alice não terão que "vender a vaca" cuja receita ajudasse a cobrir as despesas do banquete. Não havendo lugar para "penetras" e sem-vergonhices descaradas seriam facilmente destapadas, não duvido que ninguém veio do "jantar da Páscoa" de barriga vazia e com a consciência pesada...

         Ao contrário do dia de ontem em que o tempo sorriu e fez sorrir o grupo do Compasso, esta segunda feira apresentou-se hostil e copiosa em chuva, o que torna muito inconfortável a visita pascal. Sacrifício dobrado para quem tem que carregar a (belíssima!) Cruz paroquial com cerca de seis quilos de peso, subir e descer escadas e de sapatos roupas molhados. 
         - Aleluia!, Aleluia!, e a Páscoa permanece na essência do mistério que a gerou.

          

































Fotos: doLethes
Remígio Costa 

         

sábado, 26 de março de 2016

FEITOS AO BIFE.

      



                 Cresce de ano para ano a moda do "bife da Páscoa", multiplicando-se o número de locais onde é servido e dos aderentes que participam neste género de convívio coincidente com a semana pascal. Um pouco por todo o lado e em maior ou menor escala e antiguidade na tradição, reunindo centenas de apreciadores ou apenas constituídos em grupos de amigos e conhecidos, em alguns casos abertos somente ao sexo masculino ou apenas feminino em crescente reivindicação da igualdade de direitos entre os dois sexos (ai, o divórcio...), cada vez mais iluminados pelos holofotes das televisões para compor os noticiários da atualidade e com direito a espaço com fotografia nos periódicos da nação, não é de modo algum despicienda a convicção de que estamos todos "feitos ao bife"! Todos, todos é capaz de ser excessivo se se quiser crer que a crise (encoberta) pode ter a cabeça no cepo mas ainda agita o rabo...





        Lanheses segue a linha da modernidade porque não gosta que lhe passem a perna. Em nada. Se outros comem bife, comamos nós bife também. Do melhor e q.b..

        Não garanto que não haja outros locais onde hoje se tivessem juntado à mesa "fazendo-se ao bife", grupos tanto ou mais compostos do que aquele que se formou no "Papagaio", um recanto com a intimidade ajustada para o deguste pausado e religioso recolhimento. Certo é que, embora apertada, a salinha estava "à cunha" e o proprietário João e os filhos a andarem numa sanfona dentro e fora com as travessas encasteladas de nutridos nacos do lombo do boi de encher o prato. Até espanhóis, a repetir como se fossem portugueses a servir-se de gasolina nos postos do outro lado da fronteira...

       Mata-se que farta por toda a parte por tudo e por nada. Só a fome não morre. Estamos "feitos ao bife". 

        "É a vida".
        




Fotos: doLethes
Remígio Costa

OS "BOIS DA PÁSCOA".

               

                               Já não há desfile dos "bois da Páscoa" e muito raros são os lavradores que atualmente produzem animais bovinos para abate na freguesia de Lanheses (Viana do Castelo). Também já não há animais que façam a romaria na Festa de Santo Antão como outrora e da raça galega (ou qualquer outra) só a Inês Arieiro insiste em assegurar a tradição...com (belas) vacas leiteiras!

                 Ficou para trás ultrapassado pela mudança nos hábitos e costumes das comunidades rurais, o tradicional desfile dos "bois da páscoa" que acontecia na semana seguinte ao Domingo de Ramos. Em boa verdade não se tratava propriamente de um mero desfile festivo mas uma mostra de animais bovinos para abate e consumo no "jantar da Páscoa". Por quem tinha condições económicas , com certeza...

           Ouvia então dizer que eram provenientes de Perre, uma aldeia de lavradores vinhateiros encostada à montanha de Santa Luzia, a olhar por cima da cerca para a cidade de Viana. Nédios, seiscentos belos quilos ou mais de massa corporal, galegos genuínos, lentos no caminhar e de olhos mansos,  com cornos de trombeta luzidios do óleo vegetal enfeitados com fita e flores, seguiam ensimesmados e pachorrentos à frente do moço de lavoura ou proprietário, alheios à admiração do povo que se juntava ao portal a vê-los passar. - São os "bois da páscoa", vão daqui para o matadouro de Viana para serem vendidos depois no talho, comentava-se. Perdiam-se a seguir de vista à primeira curva e adivinhava-se o regresso à origem ao encontro do golpe do carrasco na ara do sacrifício.

           Pendurada no gancho metálico do talho está metade de uma carcaça. Escorreita e atraente. Saudável, garantidamente, não vá a entidade reguladora... Pesa-se com o olhar mas à vista é o avantajado tamanho que mais convence.- É do "Paço", é de confiança, ouve-se e, não há motivo para desconfiar porque no ano passado e anteriores, já o foi. De confiança

          -Corta dois, à moda da quadra. Para seguir a tradição...sem festival ou televisão.

Foto: doLethes
Remígio Costa
           

sexta-feira, 25 de março de 2016

SEXTA FEIRA DA PAIXÃO: CRISTO RESSUSCITARÁ!


Foto: doLethes
Remígio Costa

O MONUMENTAL EDIFÍCIO SEDE DA JUNTA DE FREGUESIA DE LANHESES (Viana do Castelo).

                                                        Frente oriental

          O edifício foi construído de raiz e inaugurado em 1942 para ser escola primária até à criação do novo centro escolar do Agrupamento Escolar de Arga e Lima, de Lanheses (Viana do Castelo). Está convertido em sede da Junta de Freguesia desde 2011, tendo vindo a receber outras valências depois de sucessivas intervenções para readaptação do seu amplo espaço interior. Foram criados um pequeno museu temático que evoca a época da atividade do barro na freguesia, uma sala para reuniões e exposições permanentes ou ocasionais e um auditório dotado de excelentes condições acústicas com capacidade para cerca de oitenta lugares sentados, entre outros. Sobram ainda espaços onde poderão vir a ser realizadas ideias e ambições futuras, haja iniciativa e...capacidade económica para as concretizar.

                                                        Alçado sul

      O edifício é majestoso e exibe-se com donaire à entrada da freguesia como um lindo cartão de visita para quem vem do lado do mar, a ocidente, da montanha ao norte ou do sul atravessando a ponte ou desce pela 202 depois de passar o Largo Capitão Gaspar de Castro (o centro cívico) seguindo o movimento do sol sem precisar de desviar o olhar antes de chegar à rotunda, ao fundo. Localização de acesso fácil e de vista aberta. A conjugar a elegância com as conveniências do interesse público.

      Além de tudo

      caiado de branco, a cheirar a novo, muro de granito à vista, painéis de azulejos temáticos e uma fonte com colunas de tijolo burro onde a água é (agora) virtual,

      não é a saudade do quem ali aprendeu a crescer mas o contentamento de ver tão linda e respeitada a mãe que a muitos sob o seu manto abrigou.

                     Lanheses com "Z" porque se escreveu assim.

                                                            Lado Poente

                                             Entrada para o alpendre

                       Vista do alpendre com colunas em tijolo burro fabricado na freguesia
                                Fonte dasativada. No interior há água putável canalizada




Fotos: doLethes
Remígio Costa